Adam Driver, um dos nomes mais respeitados da indústria cinematográfica atual, conhecido por suas atuações em produções de peso como o drama histórico BlacKkKlansman e a icônica saga Star Wars, viu-se no centro de uma polêmica recente que remonta aos seus primeiros anos de sucesso na televisão. O ator, que ganhou destaque mundial interpretando Adam Sackler na série Girls, da HBO, criada por Lena Dunham, foi questionado durante o Festival de Cannes sobre as revelações contidas no novo livro de memórias de Dunham, intitulado Famesick. A obra trouxe à tona detalhes sobre os bastidores da série, incluindo alegações específicas sobre o comportamento de Driver no set de filmagem.


Durante a coletiva de imprensa realizada no domingo para promover seu mais recente filme, Paper Tiger, não demorou muito para que o assunto fosse levantado. Diante da pergunta sobre as descrições feitas por Dunham, Driver manteve uma postura direta e irônica, evitando entrar em detalhes sobre o passado. “Não tenho comentários sobre nada disso. Estou guardando tudo para o meu livro”, declarou o ator, uma resposta que provocou risadas imediatas entre os jornalistas e convidados presentes na sala de imprensa do Palais des Festivals.
As alegações feitas por Lena Dunham em Famesick pintam um retrato complexo da dinâmica entre os dois atores durante a produção da série. Em um dos trechos mais comentados do livro, Dunham descreve um incidente ocorrido tarde da noite, enquanto ambos praticavam falas dentro de um trailer. Segundo a autora, ela estava tendo dificuldades para lembrar suas falas, apesar de tê-las escrito, e a situação escalou rapidamente. Dunham relata que, em um momento de frustração, Driver teria gritado “FUCKING SAY SOMETHING” (Diga alguma coisa, porra) e arremessado uma cadeira contra a parede próxima a ela, acompanhado da ordem: “WAKE THE FUCK UP” (Acorde, porra), acrescentando que estava cansado de vê-la apenas encarando o vazio.
Dunham descreve a experiência como assustadora, destacando o contraste entre a presença total de Driver em cena e o que ela percebia como uma ausência emocional em momentos de interação pessoal. No entanto, a autora também oferece uma visão matizada sobre o colega. Apesar de descrever Driver como alguém que, por vezes, podia ser “verbalmente agressivo, condescendente e fisicamente imponente”, ela também reconhece que ele possuía um lado protetor e, em certas ocasiões, até mesmo carinhoso. Dunham enfatiza que, durante a primeira temporada de Girls, eles ainda se sentiam como parceiros criativos, embora ela admitisse passar uma quantidade desproporcional de tempo questionando se o ator realmente gostava dela.
O foco de Driver em Cannes, contudo, estava voltado para o seu novo projeto, Paper Tiger, dirigido pelo aclamado cineasta James Gray. O filme, que também conta com a participação de Scarlett Johansson e Miles Teller, teve uma recepção calorosa no festival, sendo ovacionado pelo público durante sete minutos após a exibição na noite de sábado. A trama, ambientada no ano de 1986, explora a história de dois irmãos, Irwin e Gary Pearl. O enredo gira em torno de um esquema para enriquecer rapidamente, planejado para ajudar na limpeza do Canal Gowanus, que acaba se transformando em um desastre absoluto.
No filme, Miles Teller interpreta Irwin, um homem de família descrito como um tanto “nebbish” (tímido ou sem graça), que acaba atraindo a ira de mafiosos russos após testemunhar, sem querer, atividades criminosas. A responsabilidade de resolver a situação recai sobre Gary, interpretado por Adam Driver, um ex-policial que tenta intervir para salvar o irmão. No entanto, as tentativas de Gary de negociar um acordo acabam arrastando ambos para um mundo de violência ainda mais profundo e perigoso. A performance de Driver no longa tem sido um dos pontos altos da cobertura do festival, consolidando sua reputação como um ator capaz de transitar entre gêneros com facilidade.
A ausência de Scarlett Johansson na estreia em Cannes foi um detalhe notado pela imprensa, embora justificada por compromissos profissionais que a impediram de comparecer ao evento. A dinâmica do elenco e a direção de James Gray foram amplamente discutidas, com o filme sendo visto como uma adição significativa à filmografia de todos os envolvidos. Enquanto a controvérsia sobre o livro de Dunham continua a circular nos bastidores, a resposta de Driver em Cannes parece ter encerrado, pelo menos temporariamente, qualquer tentativa de aprofundar o debate público sobre o assunto.
A trajetória de Adam Driver, desde os palcos da Broadway e o sucesso na televisão com Girls até se tornar um dos nomes mais requisitados para produções de prestígio em Hollywood, é marcada por uma dedicação intensa ao ofício. A maneira como ele lida com a atenção da mídia, muitas vezes com respostas curtas ou irônicas, reflete uma personalidade que prefere que seu trabalho fale por si. A menção a um “seu próprio livro” pode ter sido apenas uma forma de encerrar o questionamento, mas, dado o histórico de Driver, a declaração certamente alimentou a curiosidade dos fãs sobre o que ele poderia revelar sobre sua carreira e seus relacionamentos profissionais caso decidisse, de fato, escrever suas memórias no futuro.
O Festival de Cannes, conhecido por ser um palco tanto para a celebração da arte cinematográfica quanto para o escrutínio da vida pessoal das celebridades, serviu como o cenário perfeito para esse embate entre a narrativa de Dunham e a postura defensiva de Driver. Enquanto o livro Famesick continua a ser lido e analisado por críticos e pelo público, a atenção se volta novamente para o desempenho de Driver em Paper Tiger, reforçando que, independentemente das polêmicas, o talento e a presença magnética do ator continuam a ser os elementos centrais de sua carreira pública.
Em última análise, o episódio em Cannes ilustra a natureza volátil da fama e como as percepções sobre relacionamentos profissionais podem ser moldadas por diferentes perspectivas. Enquanto Dunham busca processar suas experiências através da escrita, Driver opta pelo distanciamento, mantendo sua vida privada e suas opiniões sobre o passado sob controle. O público, por sua vez, permanece atento, dividindo-se entre o interesse pelas revelações dos bastidores e a apreciação pelas obras que esses mesmos atores continuam a entregar nas telas de cinema ao redor do mundo.
Fonte: Variety