A Man of His Time retrata colaboracionismo francês em Cannes

O novo longa de Emmanuel Marre explora a banalidade do mal através da trajetória de um colaborador nazista durante a ocupação francesa na Segunda Guerra.

O cinema francês tem mantido, historicamente, uma postura de distanciamento em relação às narrativas que abordam o colaboracionismo nazista. Desde que a obra-prima de Louis Malle, Lacombe Lucien, foi duramente criticada em 1974 — um episódio que, em grande medida, empurrou o cineasta para um exílio artístico nos anos seguintes —, a indústria cinematográfica da França evitou explorar as zonas cinzentas da ocupação. Esse receio tem raízes profundas: a dificuldade de retratar figuras inerentemente antipáticas, cujas ações diárias envolviam saudar Hitler ou facilitar o envio de judeus para campos de concentração, torna o exercício cinematográfico um desafio moral e estético. Além disso, a própria sociedade francesa ainda enfrenta dificuldades para processar as complexidades da Segunda Guerra Mundial, um período marcado tanto por atos heroicos da Resistência quanto por episódios de covardia e traição sob o regime de Vichy.

Neste ano, o Festival de Cannes trouxe o tema de volta ao centro do debate com duas produções ambiciosas e distintas: Moulin e De Gaulle: Tilting Iron, que exploram o papel da Resistência e da liderança exilada. Contudo, o foco do debate crítico recaiu sobre dois dramas que decidiram encarar o colaboracionismo de frente. O primeiro, The Rays and Shadows, de Xavier Giannoli, é um épico de 200 minutos que narra as atividades ilícitas do magnata da imprensa Jean Luchaire, interpretado por Jean Dujardin, e sua filha Corinne. O filme de Giannoli, embora tenha arrecadado cerca de US$ 7 milhões nas bilheterias locais, foi alvo de controvérsias por sua tentativa de equilibrar a condenação dos protagonistas com uma busca por empatia, resultando em uma obra que, segundo críticos, careceu de um ponto de vista coerente.

Em contraste, A Man of His Time (Notre Salut), dirigido por Emmanuel Marre, oferece uma perspectiva radicalmente diferente. Após o sucesso de seu longa de estreia, Zero F***s Given, que competiu na Semana da Crítica em 2021, Marre retorna a Cannes com um projeto pessoal e visceral. O filme narra a trajetória de seu próprio bisavô, Henri Marre, interpretado por Swann Arlaud. Henri é retratado não como um vilão de opereta, mas como um escritor, engenheiro e um alpinista social patético, disposto a qualquer coisa para ascender na hierarquia social, servindo fielmente aos líderes pró-nazistas.

A estética de A Man of His Time é um dos seus aspectos mais singulares. Embora seja tecnicamente um filme de época, Marre opta por uma abordagem que parece contemporânea, quase como um filme independente de baixo orçamento. Os personagens vestem roupas esportivas antigas e exibem penteados de época, mas seus comportamentos e interações são estranhamente atuais. É como se o diretor tivesse viajado no tempo até 1940 com um iPhone e começado a filmar, capturando a decadência moral e a obediência cega daquele período com uma crueza que beira o desconforto. Essa escolha deliberada torna o filme, por vezes, irritante, pois força o espectador a reconhecer a mediocridade e a ambição desmedida de Henri em um contexto de horror histórico.

O elenco, que conta com nomes como Sandrine Blancke, Mathieur Perotto, Harpo Guit, Mathilde Abd-El-Kader e Jean-Baptiste Marre, sustenta a narrativa de 2 horas e 35 minutos com atuações que evitam o melodrama. Swann Arlaud, em particular, entrega uma performance que encapsula a essência de um homem que se perde na burocracia do mal. Ele não é um monstro de cinema, mas um homem comum, cujas escolhas covardes e desejo de ser alguém importante o levam a colaborar com um regime opressor. A narrativa não oferece redenção, nem busca justificar suas ações; em vez disso, apresenta um exame clínico de como a conformidade pode ser uma ferramenta de destruição.

A recepção em Cannes destaca A Man of His Time como um olhar escandalosamente fresco sobre o fascismo em tempos de guerra. Ao contrário de produções que tentam suavizar o passado, Marre utiliza a história de seu antepassado para confrontar o público com a realidade do colaboracionismo. O filme funciona como um espelho, questionando como indivíduos comuns podem se tornar engrenagens de sistemas autoritários através da simples busca por status e segurança pessoal. A obra de Marre se consolida, portanto, como uma das mais provocativas do festival, desafiando a audiência a olhar para o passado não como um capítulo encerrado, mas como um lembrete constante das falhas humanas que podem se repetir.

A estrutura do filme, que alterna entre a vida pessoal de Henri e suas obrigações como funcionário do regime, permite que o espectador compreenda a banalidade do mal em sua forma mais pura. Não há grandes discursos ideológicos, apenas a rotina de um homem que, para manter seu lugar ao sol, sacrifica sua humanidade e a dos outros. Ao final da projeção, o que resta é a sensação de que o colaboracionismo não foi apenas um ato de grandes vilões, mas uma soma de pequenas covardias cometidas por pessoas que, como Henri, acreditavam estar apenas fazendo o que era necessário para sobreviver ou prosperar em um mundo em colapso. A Man of His Time é, em última análise, um testemunho poderoso sobre a responsabilidade individual diante da história, reafirmando Emmanuel Marre como uma das vozes mais corajosas do cinema francês contemporâneo.

Fonte: THR